Sucumbindo às Intempéries
Lucia Maria Paleari*
As últimas imagens de cidades e de zonas rurais do mundo todo,
que nos chegaram pelas tevês e celulares, nos meses de junho-julho de 2026, foram impactantes, pelo alto grau de devastação.
Plantas e animais de amplas áreas florestais foram dizimados,
cidades e vilas tiveram casas e prédios reduzidos a escombros,
pessoas morreram sem terem tido tempo e condições de reagir
sob a ação de fenômenos de forte impacto, como abalos
sísmicos, vendavais e intensas chuvas. Nada mais do que uma
tragédia anunciada, mas desprezada por mandatários,
pesquisadores e populações mundo afora, todos interessados
apenas em mercados financeiros, sucesso midiático e artimanhas
ambientais e sociais criminosas, em busca de lucros e fortuna
desmedidos e imediatos. Tudo isso, em detrimento dos
desajustes e males que provocam, não apenas atentando contra
a segurança e vida de certo número de pessoas, mas de toda a
espécie humana. Espécie que ainda não conseguiu compreender,
cientificamente ou por meio de seus sentidos vitais, que o
planeta Terra é um complexo dinâmico, profundamente e
totalmente integrado, composto de elementos interconectados e
interdependentes. Um todo, que não comporta cercas e muros,
definindo patrimônios particulares, exploração e degradação,
para superprodução agrícola, florestal e mineral, e que
tampouco compactua com a apropriação e escravização de
qualquer de seus coabitantes. Neste caso, na melhor das
hipóteses, domesticamos e confinamos bichos, ditos de
estimação, para servir-nos até mesmo como cães de guarda. Por
outro lado, denominando de serviços ecossistêmicos, atividades
biológicas, e usamos os conhecimentos obtidos sobre esse
assunto, em barganhas e aplicações agroindustriais, que, ao final,
se prestam principalmente a auferir vantagens em balanças
comerciais. O linguajar humano, seja ele popular ou científico, é
revelador da concepção de mundo que a espécie humana tem,
da sua soberba, que nos trouxe aos tempos atuais de catástrofes
generalizadas, profundas incertezas e dores. Até os
conhecimentos acumulados e que podem nos ajudar a planejar e
implementar ações nas cidades, áreas rurais e florestas, em prol
de bem estar e segurança, têm sido negligenciados. Não
retribuímos, interagindo com a mesma beleza, delicadeza, poesia
e reverência, com que a Natureza nos acolhe e, provavelmente
por isso, investigamos e obtemos alguns dados, que acabam
servindo apenas para potencializar supostos ganhos, enquanto
sucumbimos à sua sabedoria e força. E, se Deus perdoa, isto é,
dá uma nova chance, a Natureza está nos mostrando que Ela
não; que segue seus caminhos, sem nos privilegiar.
Vale ler, para ampliar a visão e refletir sobre o tema:
- As árvores não falham. As cidades, sim - Geraldo Fernandes
- Ventania no Rio e São Paulo é um fenômeno conhecido como frente de rajada - Jornal Nacional
- NAVE GAIA - Antonio Nobre e Ailton Krenak
-
BIOSFERA – Antonio Nobre
*Sobre Lucia Maria Paleari:
- Bióloga e Biomédica (FCMBB)
- Mestra e Doutora em Ecologia (UNICAMP)
lucia-maria.paleari@unesp.br