sábado, 1 de agosto de 2026

Sucumbindo às Intempéries - Por Lucia Maria Paleari



Sucumbindo às Intempéries 
Lucia Maria Paleari*


As últimas imagens de cidades e de zonas rurais do mundo todo, que nos chegaram pelas tevês e celulares, nos meses de junho-julho de 2026, foram impactantes, pelo alto grau de devastação. Plantas e animais de amplas áreas florestais foram dizimados, cidades e vilas tiveram casas e prédios reduzidos a escombros, pessoas morreram sem terem tido tempo e condições de reagir sob a ação de fenômenos de forte impacto, como abalos sísmicos, vendavais e intensas chuvas. Nada mais do que uma tragédia anunciada, mas desprezada por mandatários, pesquisadores e populações mundo afora, todos interessados apenas em mercados financeiros, sucesso midiático e artimanhas ambientais e sociais criminosas, em busca de lucros e fortuna desmedidos e imediatos. Tudo isso, em detrimento dos desajustes e males que provocam, não apenas atentando contra a segurança e vida de certo número de pessoas, mas de toda a espécie humana. Espécie que ainda não conseguiu compreender, cientificamente ou por meio de seus sentidos vitais, que o planeta Terra é um complexo dinâmico, profundamente e totalmente integrado, composto de elementos interconectados e interdependentes. Um todo, que não comporta cercas e muros, definindo patrimônios particulares, exploração e degradação, para superprodução agrícola, florestal e mineral, e que tampouco compactua com a apropriação e escravização de qualquer de seus coabitantes. Neste caso, na melhor das hipóteses, domesticamos e confinamos bichos, ditos de estimação, para servir-nos até mesmo como cães de guarda. Por outro lado, denominando de serviços ecossistêmicos, atividades biológicas, e usamos os conhecimentos obtidos sobre esse assunto, em barganhas e aplicações agroindustriais, que, ao final, se prestam principalmente a auferir vantagens em balanças comerciais. O linguajar humano, seja ele popular ou científico, é revelador da concepção de mundo que a espécie humana tem, da sua soberba, que nos trouxe aos tempos atuais de catástrofes generalizadas, profundas incertezas e dores. Até os conhecimentos acumulados e que podem nos ajudar a planejar e implementar ações nas cidades, áreas rurais e florestas, em prol de bem estar e segurança, têm sido negligenciados. Não retribuímos, interagindo com a mesma beleza, delicadeza, poesia e reverência, com que a Natureza nos acolhe e, provavelmente por isso, investigamos e obtemos alguns dados, que acabam servindo apenas para potencializar supostos ganhos, enquanto sucumbimos à sua sabedoria e força. E, se Deus perdoa, isto é, dá uma nova chance, a Natureza está nos mostrando que Ela não; que segue seus caminhos, sem nos privilegiar. 

Vale ler, para ampliar a visão e refletir sobre o tema:

- As árvores não falham. As cidades, sim - Geraldo Fernandes

- Ventania no Rio e São Paulo é um fenômeno conhecido como frente de rajada - Jornal Nacional

- NAVE GAIA - Antonio Nobre e Ailton Krenak

- BIOSFERA – Antonio Nobre


*Sobre Lucia Maria Paleari:

- Bióloga e Biomédica (FCMBB)
- Mestra e Doutora em Ecologia (UNICAMP)

 lucia-maria.paleari@unesp.br