terça-feira, 7 de outubro de 2014

Mudanças curriculares na Faculdade de Medicina da USP

Via JC-Notícias/SBPC
07.10.2014

Em artigo no Jornal da USP, o professor Walter Colli* analisa as recentes alterações no currículo do curso de Medicina

A Faculdade de Medicina, depois de 2 anos de discussão com as comissões de ensino das unidades que compõem o currículo de formação do médico, alterou abruptamente o sentido das propostas que vinham sendo discutidas. A proposta atual, implementada em meio a um processo grevista selvagem, parece-nos estranha e por isso quero registrar o monumental equívoco, sem deixar de lamentá-lo.

Para que se entenda o caso devo voltar 50 anos na história. Na década de 60 vicejavam ideias progressistas que queriam substituir, no Brasil, o velho sistema educacional universitário europeu pelo norte-americano, mais dinâmico. Tinha-se em mente a implantação do college nas grandes universidades. Assim é que se aprovou a Lei 5540/68 de Diretrizes e Bases da Educação elaborada pelo Conselho Federal de Educação onde militavam gigantes do porte de Anísio Teixeira e Newton Sucupira, dentre outros. Foi abolida a cátedra vitalícia, implantou-se a pós-graduação, criaram-se os departamentos que admitiam mais de um professor titular e propunha-se a existência de Institutos para ministrar as disciplinas básicas para os diversos cursos profissionais.

Esse é o motivo pelo qual foram construídos os Institutos Básicos na USP, já que antes da Reforma Universitária as faculdades formadoras de profissionais tinham total comando sobre os cursos do primeiro ao último ano. A ideia radical era fazer com que os estudantes, no vestibular, entrassem na universidade não em suas escolas. Às escolas caberia exigir quais disciplinas o aluno deveria cursar para inscrever-se em curso voltado à formação profissional. Na eventualidade de que houvesse mais candidatos do que vagas poderia haver um exame interno de ingresso, no qual o conhecimento exigido seria não mais de biologia, química ou física, mas de bioquímica, fisiologia, farmacologia, biologia celular, microbiologia, imunologia e outras disciplinas. À Faculdade de Medicina caberia ensinar Patologia, Clínica Médica, Clínica Cirúrgica e Medicina Preventiva, além das especialidades que lhe são inerentes. Esse tipo de organização também serviria para as Engenharias, Farmácia, Medicina Veterinária, Odontologia e outras carreiras.

A vantagem para os estudantes seria óbvia. Em primeiro lugar, eles passariam a frequentar a Universidade e relacionar-se com colegas de diferentes talentos e tendências; em segundo lugar, seriam os estudantes a escolher o seu caminho e nada impediria que um estudante que quisesse cursar medicina cursasse uma disciplina em filosofia, sociologia, ou cálculo. Assim, a Faculdade de Medicina receberia estudantes conhecedores do mesmo núcleo básico mínimo mas com formação diversificada. Vale dizer, que esse raciocínio se aplica a qualquer outra carreira que tivermos em mente.

No entanto, em paralelo, ocorreu o golpe de 1964. Aos militares que assumiram o poder não interessavam esses assuntos, tanto que em 1968 foi aprovada a Lei 5540/68. No entanto, as novas ideias provocavam no interior das universidades uma polarização, pois, havia aqueles que se sentiam ameaçados por elas. Não é por acaso que o Inquérito Policial Militar na Faculdade de Medicina teve início através de uma carta anônima que ainda tenho em meu poder. E também não é por acaso que todos os mencionados nessa carta, coincidentemente os que apoiavam a reforma, foram perseguidos, a maioria levada à cassação, ao exílio ou à prisão. Os militares apenas executaram o que se lhes insinuava. Na Faculdade de Medicina, a limpeza foi grande: praticamente todo o Departamento de Histologia e o Departamento de Parasitologia, além de importantes lideranças da Fisiologia, da Bioquímica e da Clínica Médica. Movimentos parecidos em outras faculdades levaram ao aborto da Reforma.

No entanto, os prédios da Cidade Universitária haviam sido construídos e não foi possível paralisar a mudança, de resto adotada em todo o Brasil. Desta forma, todas as “cadeiras” de Bioquímica das diversas escolas (Farmácia, Odontologia, Medicina Veterinária, Biologia, Medicina) escolheram abrigar-se no Instituto de Química e as demais (Fisiologia, Farmacologia, Histologia e Embriologia, Imunologia, Microbiologia) no Instituto de Ciências Biomédicas, nos respectivos departamentos recém-formados.

A reforma foi implantada no dia 01 de janeiro de 1970 e, portanto a USP, na cidade de São Paulo, assim funcionou durante 44 anos. Mas alguns setores da Faculdade de Medicina nunca se conformaram com a perda das “cadeiras básicas” como se referem ainda às disciplinas os saudosistas da cátedra vitalícia. Embora, a Reforma tivesse sido abortada, os alunos vêm à Cidade Universitária, até agora, para assistir às aulas das disciplinas fundamentais à formação de um bom médico. Mas os alunos, cada vez mais, são refratários a descer a avenida Rebouças, não gostam de ser reprovados, sofrem constante lavagem cerebral de veteranos e outros de que tudo o que aprendem “lá embaixo” é inútil e que o importante mesmo é aprender a dar injeção e engajar-se, já no primeiro ano, em algum esporte a ser praticado na Associação Atlética (o CEPEUSP não serve?) e para isso é preciso tempo que as disciplinas básicas lhes “roubam”.

Eis que, logo após a atual sucessão reitoral e consequente indicação de novo pró-reitor de graduação, aprovou-se uma resolução, na minha opinião mal escrita e anti-regimental, porque não obedece ao mandamento de que as Unidades da USP – Escolas, Faculdades e Institutos – são todos de igual hierarquia. Essa resolução dá às congregações das unidades autonomia para mudar o currículo a seu bel prazer, permitindo-se ao Conselho de Graduação apenas dele tomar ciência, sem prever como dirimir conflitos entre as congregações envolvidas. Aprovada a Resolução, imediatamente a Faculdade de Medicina decidiu-se pela implementação da reforma do currículo, mutilando as disciplinas que os Institutos Básicos oferecem para o currículo de formação do médico. Contaram-me que um dirigente teria dito que estava aguardando essa primeira reforma para que outras viessem no mesmo sentido. De fato, aberta a porteira há uma grande probabilidade de que processos similares sejam implementados por outras escolas de formação profissional. Em outras palavras, se essa iniciativa se reproduzir estará decretada a fragmentação da outrora Universidade de São Paulo. Depois que outras escolas fizerem o mesmo não haverá necessidade de Pró-Reitoria de Graduação que pode, desde já, ser extinta.

Quanto ao currículo para a formação de médicos propôs-se extinguir unilateralmente as disciplinas oferecidas pelo Instituto de Ciências Biomédicas, Instituto de Química e Instituto de Biociências. Apareceram 3 novas disciplinas, originalmente propostas para serem comandadas pela Faculdade de Medicina que fez misturas improváveis e cortou a carga horária total das disciplinas básicas de aproximadamente 1300 horas para 336. Não adianta querer fazer comparações com universidades norte-americanas ou canadenses porque nessas os cursos de medicina exigem que os alunos tenham cursado 2 anos (Harvard) ou 3 anos (Universidade de Toronto) de um B. Sc. (Bachelor of Sciences) ou tenham um mestrado (M.Sc) ou doutorado (Ph.D), o que implica que eles tiveram muito mais do que 1300 horas de disciplinas fundamentais. Mesmo em Oxford ou Cambridge as disciplinas básicas são ministradas em 3 anos e não em 6 meses. Se a intenção da Faculdade de Medicina fosse reduzir o tempo dos alunos em classe para que eles pudessem estudar matéria previamente indicada, poderia combinar com os Institutos Básicos uma alteração na forma de ensinar, o que seria extremamente bem aceito por todos.

Lembro-me de diálogo que mantive com o grande e saudoso Professor Antonio Barros de Ulhoa Cintra, Professor de Clínica Médica, Reitor e Secretário da Saúde no seu tempo. Em almoço no intervalo dos trabalhos de uma Comissão Examinadora em Ribeirão Preto, para enfatizar o seu pensamento ele dizia que, logo, até a ortopedia seria molecular e brincava prevendo que ainda teríamos um Journal of Molecular Orthopedics. Nesta época em que se fala de Medicina Translacional “from bench to bed”, que se procura distinguir a Medicina científica, cada mais baseada em evidências, das “medicinas alternativas”, propõe-se a redução em 1/4 da carga horária das disciplinas que fundamentam o raciocínio científico do futuro médico!

O que aconteceu, na minha opinião, foi um movimento retrógrado, levando a Faculdade de Medicina ao statu quo ante 1960 e a motivação não é nobre, apenas corporativa. Os futuros médicos, quando nada entenderem do que está escrito nas revistas médicas sobre genes, controle de transcrição, enzimas, cinética do estado dinâmico estacionário, sinalização, receptores e ligantes, devem voltar a este artigo para entender o que aconteceu. Isso, no caso de que consigam ler revistas médicas.

Walter Colli*,  75 anos, professor titular de Bioquímica aposentado,  médico e professor colaborador sênior

(Jornal da USP)