JC-Notícias/SBPC
Edição 785123.01.2026
“Formar médicos é uma responsabilidade educacional, sanitária e social. O Enamed não resolve, sozinho, os desafios da formação médica no Brasil, mas sua existência representa um passo firme na direção correta. Avaliar é cuidar da educação, da saúde e da confiança da sociedade”, escreve Francilene Garcia e Soraya Smaili, respectivamente, presidente e vice-presidente da SBPC , para a editoria especial do JC Notícias desta sexta-feira
A criação do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) marca um avanço necessário diante de um problema estrutural da educação médica no Brasil: a heterogeneidade da qualidade dos cursos, agravada pela expansão acelerada da oferta de vagas sem o devido acompanhamento regulatório. Avaliar não é punir. Avaliar é proteger a sociedade, qualificar políticas públicas e assegurar que a formação médica esteja à altura das necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS).
Os resultados da primeira edição são claros e preocupantes: cerca de 30% dos cursos de medicina apresentaram desempenho insatisfatório. O dado não surpreende, mas impõe responsabilidade. Ele confirma diagnósticos reiterados sobre fragilidades em infraestrutura, campos de prática, projeto pedagógico e qualificação docente em parte significativa das instituições, sobretudo naquelas abertas sem planejamento territorial e sanitário consistente.
É igualmente relevante destacar que os resultados do Enamed também evidenciam o bom desempenho das universidades públicas, inclusive de instituições localizadas no interior do país. Esse dado reafirma a força de projetos acadêmicos consolidados, com compromisso público, integração ensino-serviço e forte inserção no SUS, mostrando que qualidade na formação médica não é privilégio dos grandes centros urbanos. Ao contrário, experiências exitosas em regiões interioranas demonstram que investimento público, planejamento territorial e articulação com a rede de saúde produzem resultados consistentes e socialmente relevantes.
O resultado do Enamed reflete, em grande medida, a expansão recente de faculdades e cursos abertos, muitas delas autorizadas por decisões liminares. É amplamente conhecido que as faculdades federais e estaduais apresentam desempenho superior, enquanto boa parte das instituições privadas concentra os piores indicadores. E isso não ocorre por acaso. As universidades públicas dispõem de hospitais próprios, integração efetiva com o SUS, forte ênfase em ciência e pesquisa, além de corpo docente qualificado e financiamento. Em contrapartida, muitos cursos privados funcionam com mensalidades elevadas, oferta limitada de prática clínica e estruturas frequentemente improvisadas.
Regular depois da formatura é, em muitos casos, tarde demais. Mais do que um instrumento diagnóstico, o Enamed inaugura uma lógica efetiva de regulação. Cursos com desempenho insatisfatório devem estar sujeitos a sanções concretas, como redução de vagas, suspensão de novos ingressos, retirada de bolsas e incentivos públicos, bloqueio de financiamento estudantil e, em última instância, o fechamento da instituição. A mensagem é clara e inequívoca: as escolas precisarão melhorar ou deixar o sistema.