sexta-feira, 12 de julho de 2013

Foco nos sinais de vida em Marte


JC e-mail 4766, de 11 de Julho de 2013.
Foco nos sinais de vida em Marte


Novo veículo-robô que a Nasa pretende enviar para o planeta em 2020 terá instrumentos que vão buscar por carbono de origem orgânica

Um painel de especialistas escolhidos pela Nasa apresentou esta semana quais deverão ser as características do novo veículo-robô que a agência espacial americana pretende enviar a Marte em 2020. O equipamento será praticamente um "gêmeo" do Curiosity, que explora a superfície do planeta vermelho desde agosto do ano passado, mas com um detalhe fundamental: no lugar de um laboratório de geologia sobre rodas para avaliar se Marte já teve condições de abrigar vida, como foi desenhado seu irmão, o novo veículo terá instrumentos que vão buscar por sinais de que de fato organismos se desenvolveram lá no passado. Além disso, o sucessor do Curiosity poderá recolher e guardar amostras de rochas e solo que futuramente seriam enviadas para a Terra.

- O conceito para a missão Marte 2020 não pressupõe que alguma vez a vida já existiu em Marte - disse John Mustard, presidente do painel composto por 19 cientistas e engenheiros de diversas universidades e instituições de pesquisa americanas. - Mas, dadas as recentes descobertas do Curiosity, vida passada em Marte parece possível, e devemos começar a difícil saga de procurar por sinais desta vida. Independentemente do que aprendermos, vamos fazer progressos significativos na compreensão das origens da vida na Terra e a possibilidade de existência de vida extraterrestre.

Ainda sem nome, o novo veículo-robô da Nasa vai aproveitar as lições aprendidas com a construção do Curiosity, o que permitirá reduzir seu custo para US$ 1,5 bilhão, contra os cerca de US$ 2,5 bilhões gastos com seu "irmão". Esta economia, sem prejuízo aos objetivos científicos, vem em boa hora para a agência espacial, que enfrenta cortes em um orçamento já apertado por outras ambiciosas missões de estudo do Sistema Solar e as demandas de projetos que lhe restituirão a capacidade de enviar astronautas ao espaço por conta própria, perdida com a aposentadoria de sua frota de ônibus espaciais em 2011.

De acordo com as recomendações do painel, o novo veículo-robô terá câmeras que não só capturarão imagens amplas da superfície, como o Curiosity está fazendo, como poderão registrar detalhes de rochas e outras formações geológicas de interesse. A bordo também deverão ser instalados instrumentos para minuciosas análises mineralógicas, especialmente de rochas que água pode ter banhado no passado do planeta. Mas as peças centrais da missão deverão ser mesmo equipamentos de análises químicas capazes de detectar carbono de origem orgânica, isto é, resultante de processos biológicos. Mas como estes aparelhos não poderão diferenciar carbono orgânico nativo de Marte de átomos que tenham sido levados para o planeta por cometas e asteroides, por exemplo, é que entra a ideia de recolher e guardar pelos menos 31 amostras para futuro envio para a Terra.

- A missão Marte 2020 nos dará a capacidade única de responder grandes questões sobre a habitabilidade e a vida no Sistema Solar - comentou Jim Green, diretor da Divisão de Ciências Planetárias da Nasa. - Esta missão representa um grande passo em direção da criação de valiosos métodos de recolhimento e análise de amostras como parte de uma estratégia mais ampla de envio de amostras por missões planetárias.

A Nasa, no entanto, não tem previsão sobre se e quando estas amostras serão buscadas.

- Muitas considerações têm que ser feitas sobre isso, inclusive de defesa planetária: como protegeríamos a Terra de qualquer coisa que talvez esteja em Marte. Tudo isso é parte para um trabalho futuro - complementou John Grunsfeld, vice-administrador da Nasa para a área de ciências.

Por fim, o novo veículo-robô também deverá ajudar a Nasa no planejamento para uma eventual missão tripulada a Marte, anunciada pelo presidente Barack Obama para a década de 2030. Ele poderá realizar medições e testar tecnologias que darão aos projetistas uma melhor compreensão dos potenciais riscos trazidos pela poeira marciana para os equipamentos, assim como demonstrar métodos para captura de dióxido de carbono que poderá ser usado para obtenção de oxigênio e combustível pelos futuros astronautas pioneiros na exploração do planeta.

(Cesar Baima / O Globo)
http://oglobo.globo.com/ciencia/foco-nos-sinais-de-vida-em-marte-8990847#ixzz2YkBF178f