sábado, 17 de maio de 2014

Cientistas provocam Fifa: a cada gol, um santuário para o tatu-bola



JC e-mail 4953, de 16 de maio de 2014
Cientistas provocam Fifa: a cada gol, um santuário para o tatu-bola


Um plano com metas específicas para a preservação da espécie está sendo planejado, informou o Ministério do Meio Ambiente

Cientistas vinculados ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO) acabam de provocar a FIFA: homenagear o tatu-bola com um mascote vendável é balela, difícil é ajudar o bicho de verdade, ameaçado de extinção.

A ideia é que cada gol marcado na Copa seja transformado em 1.000 hectares de proteção ao ecossistema do animal. A caça e a destruição da caatinga, semiárido que abrange parte do norte e o nordeste do Brasil, são as principais ameaças à sobrevivência da espécie.

- Queremos que a escolha do tatu-bola como mascote do Mundial não seja apenas simbólica, mas contribua efetivamente para a conservação desta espécie tão carismática e de seu ambiente - afirmou José Alves Siqueira, professor da Universidade Federal do Vale de São Francisco (Univasf), em artigo publicado na revista Biotrópica, na qual os cientistas lançaram a campanha.

A ONG Associação Caatinga propôs à FIFA que adotasse o "tatu-bola" como mascote, convencida de que o Brasil deveria aproveitar a Copa do Mundo para proteger o meio ambiente. Mais de 1,7 milhão de pessoas votaram para escolher o nome do pequeno tatu, que pesa menos de um quilo e se alimenta de formigas, raízes e frutas. "Fuleco", combinação das palavras "futebol" e "ecologia", foi o escolhido.

Até agora, "Fuleco não usou nenhum discurso ambiental, não diz que está em risco de extinção. Muitos nem sabem que Fuleco é um tatu, nem mesmo aqui na Caatinga, de onde o animal é originário", explica Rodrigo Castro, presidente da Associação Caatinga.

- A FIFA autoriza empresas a vender produtos com Fuleco, inclusive um milhão de pelúcias [produzidas na China], mas nenhuma parte deste dinheiro vai para a proteção da espécie - afirmou.

"Ter escolhido Fuleco como mascote oficial ajudou a aumentar a consciência no Brasil sobre o tatu-bola e seu status de espécie vulnerável", respondeu a FIFA em um comunicado, no qual indica que o mascote não está sendo "usado para promover mensagens ambientais específicas".

Um plano com metas específicas para a preservação da espécie está sendo planejado, informou o Ministério do Meio Ambiente. Uma patrocinadora do Mundial, a filial brasileira da empresa alemã fabricante de pneus Continental, aderiu à campanha a favor do tatu.

A Caatinga, que ocupa uma área mais extensa que França, Reino Unido e Suíça juntos e mantêm aproximadamente 50% de sua cobertura vegetal, é o hábitat de outras espécies emblemáticas e ameaçadas que poderiam se beneficiar desta proteção, como a onça e a jaguatirica.

O tatu-bola - cujo nome científico é Tolypeutes tricinctus, em alusão às três faixas que permitem que sua carapaça se encaixe em forma de bola - é "a única espécie de tatu endêmico do Brasil", além de ser a menor e menos conhecida, segundo o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção.

"O tatu-bola não cava buracos, e suas únicas estratégias de defesa são a fuga e se recolher sob sua carapaça, mas mesmo correndo em fuga, pode ser alcançado facilmente por uma pessoa e quando se enrola [uma posição que pode manter por 20 ou 30 minutos], pode ser agarrado sem riscos para quem o caça", diz o Livro Vermelho.

(Zero Hora)
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/planeta-ciencia/noticia/2014/05/cientistas-provocam-fifa-a-cada-gol-um-santuario-para-o-tatu-bola-4501123.html