sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Um homem de duas cidades

Via Jornal da USP
19.09.2011


Antonio Candido: "Sérgio Buarque de Holanda levou
 para o Rio de Janeiro a radicalidade do Modernismo
de São Paulo. Do Rio de Janeiro, ele trouxe Raízes do Brasil"
CONFERÊNCIA

São Paulo e Rio de Janeiro foram fundamentais para a formação de Sérgio Buarque de Holanda, afirma Antonio Candido, em palestra no IEB

SYLVIA MIGUEL

“Se esta palestra tivesse um título, seria ‘Um conto de duas cidades’. Estou pensando no famoso romance de Charles Dickens, que se passa na Paris da Revolução Francesa”, disse Antonio Candido, ao iniciar o discurso que marcou a abertura dos eventos comemorativos dos 50 anos do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, no dia 13 passado.
Os papéis do Rio de Janeiro e de São Paulo na formação mental de Sérgio Buarque de Holanda e o papel do historiador na vida cultural dessas duas cidades foi o teor do discurso de Candido. Sérgio Buarque nasceu em 11 de julho de 1902, filho de Cristóvão Buarque de Holanda e de Heloísa Buarque de Holanda. Foi para o Rio de Janeiro em 1921. Morou dois anos na Alemanha. Voltou a São Paulo como diretor do Museu Paulista em 1946 e passou dois anos na Itália.
“Era de pai pernambucano e mãe carioca, mas agia como paulista não de 400 anos, mas de 800 anos. Foi até preso no Rio de Janeiro, em 1932, porque defendia, a altos brados, a Revolução Constitucionalista de 32”, contou Candido.
O fato mais importante da vida dele aconteceu no Rio de Janeiro, disse Candido. “Foi o casamento com Maria Amélia Cesário Alvim, uma mulher extraordinária, par absoluto para o Sérgio, espelho da casa e colaboradora de pesquisa e estímulo.”
Outro fato marcante foi a constelação de amigos formada no Rio de Janeiro, absolutamente essenciais para sua formação, entre eles, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Manuel Bandeira, Afonso Arinos de Melo Franco, Francisco de Assis Barbosa e Otávio Tarqüinio de Souza, além de seu maior amigo, Prudente de Morais Neto. “Ele não falava do Prudente sem se emocionar. Ele dizia: ‘O Prudente é um varão de Plutarco, nunca mentiu na vida’.”
Essa era a realidade que originou o historiador, destacou Candido. No Rio, Sérgio Buarque terminou o curso de Direito e aprendeu a ser jornalista; passou pela estadia na Alemanha e, sobretudo, foi assistente na Universidade do Distrito Federal, um dos mais “belos planos de universidade que se teve no Brasil, infelizmente massacrado pela direita católica”, disse Candido.
“Sérgio me disse várias vezes que aprendeu a estudar com Henri Hauser, de quem foi professor-assistente na Universidade do Distrito Federal. Foi também professor-assistente de Literatura Comparada do professor Henry Trouchon. Foi aí que nasceu o historiador”, sentencia.
Nesse sentido, o Rio de Janeiro foi “absolutamente fundamental” na vida de Sérgio Buarque. “O Rio de Janeiro era a única cidade realmente civilizada do Brasil. São Paulo era uma honrada província, porque rica. Hoje mudou muito, o Rio é uma sombra do que foi. O polo cultural se deslocou para São Paulo.” Continua