quinta-feira, 10 de novembro de 2011

As asas dos alimentos: Abelhas ganham valor na produção agrícola

Por Carlos Fioravanti, na revista Pesquisa FAPESP,
Edição Impressa 171 – Maio 2010
Via EcoDebate
08.11.2011


“Vou falar de abelhas e de flores”,anunciou a bióloga Vera Lúcia Imperatriz Fonseca diante de uma plateia de economistas e estudantes de economia em um debate no final da manhã de 15 de março na Universidade de São Paulo (USP). O início singelo logo ganhou densidade. Em menos de meia hora, as abelhas deixaram de ser vistas apenas como produtoras de mel e ganharam valor como seres indispensáveis para manter ou ampliar a produção agrícola – culturas como soja, laranja, cacau e café podem ser mais produtivas com elas por perto. Biólogos e economistas começaram ali mesmo a ver como poderiam colaborar para preservar as populações de insetos como as abelhas que favorecem o crescimento dos frutos. Embora nem sempre valorizados, podem fazer falta. Em 2006, a produção agrícola dos Estados Unidos apresentou uma queda acentuada quando as abelhas Apis mellifera usadas como polinizadoras agrícolas começaram a morrer repentinamente.

Pesquisadores da USP e de outras universidades estão se articulando entre si e com outras instituições para evitar consequências similares do declínio das populações dos polinizadores naturais. No final do ano passado, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) aprovou R$ 5 milhões para que grupos de pesquisa de seis estados – Rio Grande do Sul, Bahia, Ceará, Minas, Pernambuco e Pará – avaliem o impacto dos polinizadores sobre a produtividade de algodão, tomate, maçã, melão, canola, caju e castanha do Brasil. O Ministério do Meio Ambiente (MMA), que tem mostrado interesse nesse campo desde a divulgação da Declaração de São Paulo sobre a Conservação e Uso Sustentado dos Polinizadores, em 1999, começou este ano a receber um financiamento internacional de R$ 7 milhões para implantar um projeto complementar, o Polinizadores do Brasil. “Precisamos mostrar aos agricultores exatamente o que eles podem fazer”, diz Bráulio Dias, diretor de conservação da biodiversidade do MMA. “Nossa estratégia é de ganha-ganha, em termos econômicos e ambientais.”

Os participantes desse trabalho desejam saber o mais rapidamente possível quão próximo o Brasil está de uma crise de polinizadores. “Ainda não chegamos a uma, mas estamos caminhando para lá”, diz Vera Fonseca. A crise pode já ter chegado e não ter sido detectada porque as causas estão aí: o desmatamento contínuo, o crescimento das cidades e a intensificação das alterações climáticas, que forçam a migração das populações de abelhas e de outros polinizadores de matas nativas como borboletas, aves e morcegos. “A Iniciativa Europeia de Polinizadores, que reuniu 85 instituições de pesquisa, detectou que havia uma crise de declínio de polinizadores por lá e já começou a agir para reverter o que for possível e evitar o pior.” Continua


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